terça-feira, 18 de julho de 2017

C.

Quatro anos. Quanto tempo podemos passar amando a mesma pessoa sem que isso se esgote? Bem, eu pensei que isso ia passar, mas já fazem quatro malditos anos. 
Você pode dizer que é exagero meu, e que faz quatro anos que nós nos conhecemos, não que a gente se ama. Ops, que eu te amo. Mas sim, eu te amo há quatro anos. Eu te amei desde a primeira vez que eu te vi. 

A primeira conversa: admiração. Você tão linda, cantava tão bem. Eu tão tímida. Mas tomei coragem e fui! Eu falei com você. Você tão simpática. Eu tão sem jeito. Gostei da sua blusa? Sério? Mas eu já disse, você era tão simpática, e disse que gostou da minha jaqueta horrível. Eu tão nervosa. Você tão calma. Balancei a cabeça em positivo, tão nervosa, que fiz mais vezes que o necessário. E você sorriu. Meu Deus, você sorriu! Admiração. Linda, canta bem, tem um sorriso lindo, é simpática. Nós conversamos. Tão doce você parecia. Admiração. Tanta admiração. E você pegou a minha mão. Nós entramos. E foi aí que tudo começou. 

O começo: Amor. Eu te amei desde o início. Claro que não da mesma forma que amo hoje. Aquele amor era puro. Casto. Aquele amor de quem se conhece, se descobre. Você sempre tão doce, atenciosa, cuidadosa. Você sempre com aquele sorriso. Você sempre tão carinhosa. Você sempre me fazendo sentir segura. Você não ria do meu jeito, nem achava estranho. E eu tinha tanto medo naquela época. Mas você achava graça e sorria. Meu Deus, você sorria! Os olhinhos quase fechados, um sorriso tão aberto. Dizia que eu era fofa, mas você era muito mais! Ria de todas as minhas piadas sem graça. Admiração. Amor. Você cuidava de mim, estava sempre por perto. Você me mantinha segura de mim mesma e do mundo. 

As descobertas: Eu vi você beijando ela. Sim, eu vi você beijando sua amiga. Você surtou tanto. Foi a primeira vez que te vi chorar de desespero. E como você chorava, Boo! Achou que eu ia te julgar. Achou que eu ia te dedurar. Achou que eu ia te afastar. Mas eu te acolhi. Te acolhi e coloquei debaixo das minhas asas de fada. Na nossa capa de invisibilidade. É o nosso segredo, não vou contar a ninguém. E não contei. 

O ponto positivo: Eu já sabia que estava apaixonada por você. Eu sempre fui. Desde a admiração, lembra? E por tamanha admiração eu achei que nunca teria uma chance. Jamais. Uma menina tão bonita, simpática… Ela só olha pra mim com olhos de amizade. Sim. Porque eu sempre pegava seus olhos em mim tanto quanto grudava os meus em você. Eu odiei ver, mas agora estava ali, brilhando para mim, a esperança. Você beijou ela, mas eu era suficiente pra você me beijar? 

Os segredos: Ela era seu dragão. Isso é tão óbvio. E quando descobriram, eu já sabia, mas você contou. E eu disse ok. Você estava com tanto medo de te descobrirem. Descobrirem algo que você nem realmente era, você dizia. É só com ela. Como um defeito de fábrica. Ok, então. Juntamos agora o ciúme no amor e admiração. Mas ok, agora, como nosso segredo e piada interna, eu era seu dragão. 

O primeiro beijo: Cada vez mais próximas. Cada vez mais juntas. Eu adorava te olhar dormir. Na mesma posição que dormia, acordava. Completamente diferente de mim. Mas você não se importava com os braços e pernas que eu jogava pra todo lado e pedia, dorme comigo? E eu te olhava dormir. Te olhava acordar. Te olhava cair no sono. Recebia seus carinhos, cafunés. Seus beijos no meu rosto, na testa. Recebia seus beijos perto, cada vez mais perto de onde eu realmente queria. Você chegava ali bem no cantinho da minha boca e beijava, e depois sorria. Mas não era aquele sorriso dos olhos fechados. Era aquele sorriso que puxava o canto dos lábios. E piscava pra mim. Deus, você piscava pra mim! 
E naquela noite, em meio a segredos contados no quarto onde só havia eu e você. Em meio a risadas e piadas. Em meio a discordâncias de qual era a melhor música, banda, o melhor filme. Em meio carinhos e abraços. Em meio a sorrisos que não eram daqueles que fechavam os olhos, eram daquelas que só levantavam o canto da boca, eu quis brincar. Eu quis brincar de chegar quase lá, e depois piscar. Você fazia, não é? Eu também poderia fazer. Mas eu não era você. Você é controlada e eu sou espontânea. Uma espontaneidade fofa, você dizia naquela época. Tão impulsiva. Quando ia ver, já tinha feito. E fiz. Era pra ser no canto da boca, mas eu errei. Errei feio. Ou errei bonito. Talvez, na verdade, eu tenha acertado em cheio. Foi a primeira vez que eu toquei o paraíso. E eu nem ao menos sabia fazer aquilo. Mas você não se importou em me ensinar. Eu toquei o paraíso e ele soltou seus anjos no meu estômago, enquanto eu encontrava o céu, só que da sua boca. Pela sua boca. Naquela época você era o meu anjo. Meu anjo da guarda. Lembra? Admiração. Amor. Você sempre tão carinhosa, simpática, cuidadosa, carinhosa. Naquela época. 

Te deixo ir...

Te deixo ir. Finalmente, te deixo ir. Não porque não te quero mais, mas sim porque te quero muito. Muito bem, e muito feliz. 
Te deixo ir porque me desapeguei do apego e do egoísmo de querer você pra mim, e principalmente me desapeguei do meu ego que queria que você me amasse, como eu te amava. Amo. 
Te deixo ir, porque na verdade, nunca esteve. Somos pássaros voando no céu, tentando encontrar no horizonte liberdade, e quem sabe no caminho, algum ninho. Pássaros que se cruzaram no céu, se acompanharam por um pequeno percurso, mas que depois foram seguir outros horizontes. Eu estava me recusando a seguir meu horizonte, queria seguir o teu. Finalmente queria parar de voar e ser teu ninho. Mas o vento mudou nossos caminhos... 
Te deixo ir, pássaro vermelho, não vou mais te acompanhar. Mas, enquanto esse amor habitar em mim, serei teu ninho no céu toda vez que a gente se cruzar. Conta comigo pro que precisar. 
Te deixo ir, porque me deixei ir, porque descobri que o amor é livre, desimpedido. E que quando está lado a lado por opção, e não pressão, é bem mais bonito.

Fragmentos de M (2).

Dor de cabeça. De novo, outra vez, sempre. Droga de dor de cabeça. Droga de cabeça, aliás. Sabe quando você sente que todas as decisões que você toma estão erradas, e que não importa pra que lado você siga, você permanece perdida? Aaaaaarg, e pra acompanhar, a dor de cabeça. Os meninos me chamaram pra festa, eu preciso ficar bêbada o suficiente pra esquecer dela. Ou pra esquecer de mim. Ou dos dois. Ou de tantas e tantas coisas mais. Das pessoas que se foram, das que ficaram mas não é mesma coisa, dos meus projetos pendentes e inacabados, dos meus amores vãos que eu não me lembro de esquecer. É, é ele ainda. Ou ela? Ou os dois. Por que escolher um só? Por que ser de um só? Não é que eu não ame, ou que eu não me importe, é que me importo e amo muitas pessoas diferentes, ao mesmo tempo às vezes, e ninguém entende isso. Eu sinto falta dela... Eu sinto falta dele... Ou talvez eu só sinta falta de sentir alguma coisa. Esse vazio me engole. Esse buraco gigante de nada me encurrala. E eu estou no fundo dele. Porque é isso que eu tenho, é isso que eu sou: nada. E.Essa.Dor.De.Cabeça.Que.Não.Passa. Parece um sino de igreja na minha cabeça. Odeio sinos. E odeio tudo que é repetitivo, monótono. Odeio tudo que não muda. Por isso eu sou assim, mudo de tema toda hora. Mas no final, é bem capaz de eu estar falando sempre da mesma coisa: meu egoísmo enorme, minha carência eterna e esse meu pavor da solidão. 

À.

A madrugada traz o rolê
A madrugada traz a lua 
Mas a madrugada traz a sensação de que ainda sou tua 

A madrugada traz a bebida
A madrugada traz a boca daquela moça gostosa pra beijar 
Mas a madrugada também me lembra que eu não consigo te apagar 

A madrugada traz a euforia 
A madrugada traz o lado feliz da minha personalidade
Mas a madrugada também me lembra que é só você quem me conhece de verdade 

A madrugada traz mentira 
A madrugada traz vaidade 
A madrugada me faz comer outra sabendo que é de você que tenho vontade 

Minhas madrugradas tem se resumido nos bares 
Onde eu vou pra te esquecer 
Mas não tem nenhum garçom desses bares, amor 
Que não saiba quem é você

Meu vão.

Eu tento me explicar,
Mesmo tu não pedindo explicação.
Tenho muitos aos meus pés,
Mas ainda tô na palma da tua mão.

Que ironia, não?

Mesmo com o peito carregado de verdades doloridas e sentimentais.
Sorrio e vivo meu vão.

Documento sem título.

Eu queria dizer que meu quarto assistia mais um fim de outra história comum. Mas que hipocrisia chamar nossas histórias de amor de histórias comuns. Porque cada romance faz a gente crescer a amadurecer de um jeito diferente, numa fase diferente, em aspectos diferentes. E se não te fez mudar, e nem crescer, não foi amor. Eu deixei um pouco de mim, e trago um pouco de todos os meus amores. Tenho dificuldade com pontos finais. Pra mim todos eles são reticências. Como uma ex disse, não muda o amor, muda o modo de amar. 

Fragmentos de M.

Mais uma dose. Agora vai! A tontura veio mais forte, a vodka desceu rasgando. Mas agora tinha que vir, o porre tinha que vir. Eu tô rindo demais, e alto demais. Acho que tá vindo. Guardei o celular bem no fundo da bolsa, por que não sei que vontade é essa que dá de ligar pra ex quando a gente tá de porre. Vontade de ligar e gritar: EU NÃO AAAAMO MAIS VOCÊ. OUVIU? EU TÔ NUMA BOOOOA. E chorar depois por tudo ser mentira. E o fato de eu estar ligando já significa que eu não tô numa boa e que eu não esqueci nada. Mas essa noite não tem choro, e não tem ligação pra ex. Não, essa noite não. A tequila desce leve, por isso eu bebo mais três doses. Ou seis. Pelo menos eu já estava bêbada demais pra contar. Meus amigos já estão com seus casinhos antigos, com novos ou com os dois. As meninas me puxam pro trenzinho; uma delas me beija; outra também; gente, essas meninas estão assanhadas hoje. Mas espera, sou eu que estou beijando elas. Gente, eu tô assanhada hoje. Começa a rodinha da boquinha da garrafa, e eu me pergunto como fui parar lá embaixo tão rápido. Desce quente, e desce muito. Alguém me puxa. Meu Deus. Tem o rosto muito parecido com o dele, mesmo que ele seja muito mais bonito. Mas é parecido. E por isso eu deixo, deixo ele me beijar sem nem falar nada comigo. Ele não beija tão bem quanto ele. Ele não me segura tão forte quanto ele. A boca dele não encaixa simetricamente e perfeitamente na minha como a dele. Mas espera, ele não é ele... Mas é parecido. Mas não é ele. E cadê a droga do meu celular pra eu ligar pra ele e dizer que eu estou beijando alguém muuuuuuiiittttooo melhor que ele? Melhor não procurar, porque seria uma puta mentira. Ele não chegava aos pés dele. E confesso que quando ele me soltou e foi buscar outra, eu agradeci. Eu bebia pra esquecer, mas que merda mais eu podia fazer se agora nem bebendo eu esquecia?